Carta ao leitor
Quisera eu imaginar que estaria escrevendo esta carta no intuito de dizer coisas simples, mas as vezes até mesmo a simplicidade pede um pouco de rigor. Digo isso não só por entender que coisas simples podem se unir e construirem algo muito mais complexo devido suas partes pequenas entrarem em contato, só que também por entender que a dureza nem sempre é somente sólida, palpável, aquilo que se sente também pode ser duro ao ponto de não ter como suportar e precisar, vez ou outra, explodir internamente ou externamente.
Lembro-me das vezes que nós quando crianças corríamos na rua, despreocupados, desordenados, sem saber para onde estávamos indo, apenas assegurando a intenção de que em breve chegaríamos a uma sombra e ali repousaríamos sem medo de que algum adulto nos encontrasse e nos mandasse retornar à casa... Como é simples essa mentalidade, não é mesmo? Esse ímpeto de não ter medo do futuro e nem medo do que ele pode vir a ser, ingenuidade tangível aos olhos e ao coração.
Lembro-me de nossa primeira volta de bicicleta no quarteirão. Ali desbravamos o mundo, parecia que o fato de não estarmos usando as pernas, mas sim os pedais nos tirava o cansaço e nos garantia uma fuga breve, sem dificuldades, como fôssemos donos de nosso próprio destino, mesmo não sabendo qual ele era: Retornar à casa ou retomar de um novo ponto de partida? Até hoje, não sei.
Lembro-me da adolescência chegando, nossos amigos dizendo que faríamos um belo casal. Nos olhávamos e ríamos: "É claro que não!", dizíamos. Sem saber que sentimento já tínhamos e tão grande admiração sentíamos a ponto de negar, pelo simples fato de entender que a negação pesa bem menos do que uma afirmação. Era o retrato da nossa ingenuidade tangível aos olhos e ao coração. Simplicidade.
Lembro-me que por algum motivo nos afastamos. Fui descobrir muito tempo depois que o tal destino que não entendíamos qual era e o futuro, que não fazíamos ideia de qual seria, haviam chegado. Você estava longe do nosso "habitat natural" e eu, em breve, também iria para bem longe dali. Ufa! Quem sabe assim não sentiria a dor da saudade de um grande companheiro. Companheiro: palavra simples que ao final desta carta toma uma dimensão incrível.
Lembro-me que passamos muito tempo sem nos falar, nos ver, planos guardados a sete chaves, histórias que não foram compartilhadas... Um "BOOM" de explosão se deu depois do nosso "primeiro "oi" ", éramos muito diferentes de antes, éramos desconhecidos que estavam prestes a se conhecerem mesmo tendo ideia de suas essências, crenças e admirações. Logo te vi apaixonado pelo o que tornei-me, fiel a mim e ao que sinto. Pena que o sentimento, em mim, não surgiu igual. A balança tendeu para um dos lados e o lado que mais pesou foi o seu. Isso é simples demais, porém duro para se entender. É uma grande conexão entre partes simples.
Chegou o momento de retorno, você está aqui, eu também. Nosso "habitat" já não tem tanta cor como antes, nós já conhecemos o futuro que não conhecíamos, afinal, hoje vivemos nele. Nós não somos mais as crianças que corriam dos adultos, mas sim os adultos que fazem as crianças correrem. A ingenuidade modificou-se, tornou-se quase imperceptível, que dirá tangível... Tornei-me minha própria companheira de jornada e você, o mesmo. Duro de se entender, difícil de sentir, chato demais admitir que os sonhos de criança sumiram e aquela frase "É claro que não!" perdeu no tempo parcialmente o sentido, pois por um lado, devido as circunstâncias, ela vive, por outro, a negação ainda continua sendo mais fácil do que a afirmação.
Espero por cenas dos próximos capítulos e, no futuro, que agora sei que mora logo ali, ainda ter o que lembrar.



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