Dia internacional da mulher são todos os dias



    Já era para ter escrito este texto ontem, mas foi impossível, pois minha jornada começou antes mesmo do amanhecer, às 5 da manhã já estava preparando o café. Café, esse, que não cheguei a tomar. O prazer consistia apenas em ver meus filhos felizes com a mesa farta. Enquanto eles se deliciavam, eu pegava a bolsa e verificava se tinha esquecido de colocar as chaves dentro dela; pouco antes de sair, passei a missão para João, meu filho mais velho, ele ficaria responsável por cuidar de Julia, sua irmã, até o meu retorno. Desejei um bom dia às crianças e saí de casa. Naquele momento, eu não fazia ideia da importância deste dia para a sociedade, na verdade, só fui me dar conta do que o dia de ontem representava há pouquíssimo tempo.
    Assim que cheguei no ponto de ônibus, passei pela primeira experiência, mesmo ainda sendo bem cedo: o assédio. Ouvi um "fiu, fiu" vindo do outro lado da rua, tinha consciência que era para mim, mas não me dispus a olhar, só poderia ser um desocupado ou um bêbado que havia passado a noite inteira na gandaia, enquanto sua mulher, em casa, cuidava dos seus. Foi quando vi um rapaz vindo em minha direção, esse me lançou um "grandiosíssimo": "Bom dia, gostosa!". O que? Só poderia ser brincadeira, não é?! Isso não estava acontecendo comigo. Ou pior, estava.
     O meu ônibus demorou muito e a maldade contida em: "Está perdida por aqui a essa hora?!", " Chega aqui mais perto, não mordo,não", "Estou vendo que você está suada, quer ir ali em casa lavar rosto?", só me incomodava ainda mais. A última fala, não consegui deixar passar em branco e repliquei: " Não é preciso, estou perto da minha, obrigada!". Percebi que passava um ônibus e resolvi fazer sinal para ele, minha meta era sair daquela situação e fugir daquele momento constrangedor. Esse ônibus daria a volta ao mundo antes de chegar ao meu destino final (como a maioria faz), mas chegaria. Isso que era importante.
     Depois de 2h 30, cheguei ao escritório. Se antes, já estrava atrasada, agora, então, estava mais ainda. Algumas pessoas vinham comentar comigo sobre o atraso, minha vontade era lembrar a todas elas o que havia acontecido já pela manhã, porém mantive a compostura. Outras pessoas disseram-me que a reunião já havia começado. Larguei minha bolsa, literalmente, em cima da cadeira e fui fazer a apresentação do meu projeto. Isso mesmo, era chegada a hora de deixar tudo o que aconteceu antes da minha chegada ao escritório, fora do escritório.
     A reunião durou por volta de três horas. Foi aí que tive um "espaço" para chamar de meu, porém quando fui verificar o horário no celular, percebi que haviam 15 ( QUINZE!) ligações não atendidas, todas elas eram do colégio da Julia. Já me preparei para bomba e ela, consequentemente, veio: minha menininha tinha torcido o pé e estava aos prantos! No mesmo segundo, pedi para que pudessem me liberar mais cedo (já que nesse momento o pai dela deve estar muito ocupado jogando futebol ou rindo muito com as mensagens que rolam no grupo dos amigos no Whatsapp). Consegui a liberação e fui correndo, ou melhor, de ônibus até o colégio. Peguei a Juju, entramos no táxi e voamos até o atendimento de emergência mais próximo.
     Não demorou muito e ela já havia sido liberada. O médico a medicou e receitou alguns outros remédios, todos com hora marcada. Eu tinha a certeza de que logo ela ficaria bem. Ufa! Missão cumprida.
    Quando chegamos em casa, adivinhem quem estava deitadão, no maior sentido da palavra, no sofá da sala? Isso mesmo, o papai! Julia logo saiu dos meus braços em direção a ele, no sentido de contar as novidades do dia. Na verdade, ele já estava a par de toda situação, e, pra melhorar, tinha me dito que não poderia fazer NADA e que era para dar meu jeito. Fala legal, essa, né? Engoli em seco, mas não deixei transparecer qualquer tipo de insatisfação.
     Fui ao quarto de João checar se estava tudo bem, e ele, como sempre, estava estudando; comecei o questionário: "Como foi seu dia hoje?", "Fez algo diferente na escola?", dentre outras perguntas. Ele já até decorou a posição de todas elas, porque sempre as faço assim que chego em casa. São coisas de mãe, por favor, compreendam!
     Não demorou muito, me dispus a ir preparar o jantar. Roberto, meu marido, estava sentado à mesa na cozinha e tagarelava (sem pausa) sobre os inúmeros problemas que haviam surgido ao longo de seu período no trabalho. Sinceramente, nunca vi uma pessoa para reclamar tanto quanto ele! E,sim, ele enxergava problema onde não existia. Em nenhum momento referiu a mim uma simples pergunta: "E seu dia, como foi?", aquilo me agoniava, era como se meu dia tivesse sido resumido a levar a Julia ao hospital e só. Já contei aqui que não foi bem assim... Vá tentar entender os homens! Ou melhor, esse homem, em específico.
     Jantamos, João me ajudou a retirar a mesa e a lavar a louça, arrumei os brinquedos que as crianças haviam deixado pelo chão da sala enquanto brincavam esperando que o jantar ficasse pronto, tomei banho, sentei no sofá, peguei o celular e percebi que lá estava, no grupo das amigas, uma mensagem que dizia: "Feliz dia internacional da mulher, somos mais fortes do que vocês imaginam!" e parei um pouco para refletir... Esse havia sido o MEU dia?! Durante minha reflexão, acabei pegando no sono. E como dormi mais cedo do que é de costume, acordei mais cedo, também. Comecei a escrever esse texto e, já no final dele, cheguei a uma conclusão: Dia Internacional da Mulher, são todos os dias.    
     Agora, preciso levantar para preparar o café, afinal de contas, já é um novo dia, e esse, também, será MEU. A luta continua.

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